quinta-feira, 23 de abril de 2020

Sobre a Presença Amorosa



Nesses dias eu estava refletindo sobre a ideia da presença amorosa, de a gente sentir dentro de nós uma fonte de amor que nos acompanha quando estamos nas melhores companhias ou até quando estamos sozinhos. Eu sinto que é sobre respirar fundo e sentir que existe um amor, uma aceitação, um acolhimento que pode brotar aqui quando buscamos desenvolver um olhar amoroso sobre os processos que estamos desenvolvendo em nossas vidas.

Muitas vezes olhamos para a gente com um olhar crítico, descrente, amargo, a gente se cobra muito né? A reflexão passa pela ideia de como a gente pode se surpreender ao perceber que verdadeiramente pode se amar e q não importa o q aconteceu antes na nossa vida, o que importa é daqui pra frente, abraçar os nossos defeitos e junto com nosso melhor procurar viver o que a vida tem de melhor a oferecer. Ao mesmo tempo nesse espaço de presença amorosa a vida sempre trás o melhor, podemos ter confiança no que virá porque tudo ocorre para esse melhor.



Att, Pedro Possidonio
Psicólogo e Terapeuta
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quarta-feira, 22 de abril de 2020

A arte do equilíbrio nos relacionamentos



Um casal de equilibristas ganhava a vida através de seu talento, ele mantinha sobre a cabeça uma haste flexível, ela ia subindo e se equilibrando enquanto ele, atento, continuava andando... Assim impressionavam as pessoas com sua arte e ganhavam as moedas que lhes ofereciam por onde quer que passassem...

Olhando nos olhos da amada ele disse um dia: e se passarmos a prestar mais atenção um no outro para que, assim possamos nos amar e nos cuidar mais e garantir nossa arte e nosso sustento com segurança para ambos? Assim, ao menor sinal de erro ou de perigo, podemos nos ajudar e nos cuidar mais ainda no decorrer de nossos dias...

Sentindo a intenção amorosa daquelas palavras, a jovem atenciosa disse para seu amado: melhor continuarmos nos cuidando e dando o nosso melhor prestando a atenção correta a nós mesmos, eu cuidando de mim e de meu equilíbrio e você de você e do seu equilíbrio, pois ao desviar de mais o olhar para o outro podemos acabar esquecendo o mais importante, que o que alimenta nossa arte é a base de equilíbrio que existe em cada um de nós. É assim que, nos cuidando, podemos continuar alimentando e sustentando nossos dias e continuar nos amando.


***

A história ou conto é uma metáfora terapêutica que serve para ilustrar a ideia de equilíbrio em um relacionamento. Pode ser adaptada para falar de amizade ou relacionamento terapêutico, mas aqui vamos usar no sentido de relação de casal mesmo e abordar os temas co-dependência , equilíbrio, solitude e papel dos relacionamentos.

Co-dependência é um tipo de relação onde o amor é o equilíbrio são substituídos poriam estrutura de apego semelhante a um vicio. Ao invés de o outro ser parte importante que acrescenta em minha vida, ele passa a ser o centro e o único motivo pelo qual vivo.

Já em desequilíbrio, este tipo de relação pode manifestar uma série de sintomas como brigas, violência física, traições, entre outros. Mesmo assim, numa situação de violência por exemplo, a pessoa não consegue se dar conta de que a relação é tóxica e permanece nesse tipo de situação adoecedora.

Quando termina uma relação dessa, a pessoa em co-dependência sofre muito pois perdeu o que achava ser o centro de sua vida. No equilíbrio saudável, o outro é sempre parte, acrescenta a minha vida, e mesmo que a perda doa, ela não é desestruturante. O rapaz de nossa história tenta colocar a moça numa posição de dependência, mas ela inteligente consegue por a relação em uma posição de equilíbrio.

Outro tema importante no quesito relacionamentos é a questão da solidão e da solitude. Quando a solidão nos incomoda, quando foi estar só, provavelmente estamos sendo uma má companhia para nós mesmos.

Em contraste com esta solidão que é vazia é angustiante, há o tema da solitude, um tipo diferente de solidão com plenitude, na qual aproveitamos a solidão para cultivar os nossos dons e talentos, nossas virtudes artísticas e culturais no sentido da Sublimação psicanalítica.

Assim, aproveitando a solidão para praticar a leitura, a poesia, a música, o desenho, a pintura, a dança, para cultivar a criatividade e a arte, transformamos a solidão em solitude. E assim, sendo uma boa companhia para nós mesmos, formamos uma base a partir da qual podemos viver melhores relacionamentos.

Concluiremos esta interpretação abordando um pouco sobre o papel dos relacionamentos. Através dos encontros, das relações, descobrimos e desenvolvemos dimensão mais profundas de nós mesmos.

O outro sempre funciona como um espelho, para sentimentos positivos que temos dificuldade em experimentar sozinhos, e para sentimentos negativos que as vezes estão nas dimensões interiores traumáticas que não temos consciência.

Sem consciência e autoconhecimento, os relacionamentos acabam sendo palco de projeções Inconscientes, um caldeirão de sofrimentos. A cada experiência, no entanto, podemos ficar mais conscientes, e os relacionamentos podem ser uma chave para nossa evolução.

Quando cada um cuida de si, no entanto, cuidando de seu próprio equilíbrio como a moça de nossa história, podemos viver relacionamentos mais saudáveis, mais verdadeiros e mais presentes.



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terça-feira, 21 de abril de 2020

O Mistério do Real



Era uma vez um poderoso rei e seu filho, o príncipe. Quando este atingiu a idade de viajar pelo mundo o pai o chamou e disse: aproveite a viagem , só te deixo um alerta: não existem ilhas, não há princesas, não existe Deus. Não vá deixar ninguém te enganar.

Quando estava a algumas milhas viajando em seu barco, no entanto, o príncipe viu grandes aglomerações de terra com maravilhosos bosques e florestas e, em cada uma delas, seres misteriosos e belos dos quais não se arriscava a dar nome. Parou em uma daquelas terras que se erguiam no oceano e encontrou um senhor, vestido com um manto belo como a noite, ao qual resolver perguntar:


-o que são estes montes de terras?
-são ilhas, respondeu o sábio.
-não pode ser!?! E aquelas criaturas misteriosas? Oque são?
-são as mais belas princesas,
-como isso é possível? Antes de iniciar minha jornada meu pai me avisou que não existem ilhas, nem princesas e nem tampouco Deus... Mas espere? Quem é o senhor?
-muito prazer, sou Deus, respondeu o sábio ao príncipe.



O príncipe ficou assustando, e rapidamente navegou de volta a seu pai, narrou a ele o ocorrido pedindo explicações. Acaso o pai havia mentido?


-espere, disse o rei, como este distinto senhor se vestia?
-com um manto escuro, da mesma cor da noite, disse o jovem.
-está explicado! Tu foste enganado por um mago!


O jovem volta navegando até a ilha em que reencontra o senhor, ao qual desafia:


-agora sei a verdade, e tu não me enganas, tu não passa de um mentiroso mago! Serás punido com a morte por haver mentido ao príncipe!
-espere meu jovem, tens razão! Sou apenas um velho mago. Mas antes de me punir, preciso que saiba que apenas sigo as ordens do mais poderoso mago que há, teu pai, aquele que chamas rei, me ordenou que te dissesse tudo isso, e saiba que aquelas são verdadeiras ilhas, e aquelas são verdadeiras princesas.

Transtornado o jovem navega de volta para casa, conta o ocorrido ao pai, e este, com um sorriso misterioso no rosto arregaça as mangas da túnica real, onde se percebe por baixo uma túnica da mesma cor da noite.


-filho, é isto, eu sou apenas um mago que joga o jogo de ser rei, e usei de todo este artifício para que soubesses a verdade
-mas agora para mim chega, disse o príncipe, eu quero saber o que existe de verdade, para além das ilhas, das princesas e de toda essa magia,
-não existe nada além da magia, sorriu o rei


O jovem pensou um pouco na beleza das ilhas e no encanto da jovem que, entre as princesas mais belas, havia feito bater mais forte o seu coração, e pensou que era possível aceitar a realidade que não há verdade além da magia!



***


Através dessa história, podemos falar da jornada de nossa consciência em busca do esclarecimento. Num primeiro momento, ser confrontados com uma verdade maior do que somos capazes de suportar é um problema. Lacan muitas vezes expressa que a vida é enigma, fazendo referência à dimensão do Real que não somos capazes de apreender completamente, expressa na nossa história como magia.

Curioso apontar que o jovem de nossa história tem a pulsão do conhecer, que se expressa no desejo de viajar e de perguntar sobre as realidades que não entende, buscando assim explicações.

Ao sermos confrontadas com situações que não compreendemos, com os desafios da vida, sofremos o traumatismo que é normal da vida. O jovem da história segue sua jornada até atingir uma nova compreensão, semelhante a uma iniciação, a qual recebe de seu pai, que buscava apresentá-lo ao enigma da magia, representando aqui os desafios, segredos e mistérios da vida.

Ao integrarmos a nova realidade com uma nova interpretação ou nova compreensão, transformamos o Inconsciente em consciente, integramos o traumatismo, atingimos graus maiores de compreensão simbólica.

O pai do jovem, na figura de um mago que representa um rei, é um ótimo exemplo do que Lacan vai chamar de Sujeito suposto do saber, posição que deve ser sustentado pelo analista no início da terapia para que se de a transferência. Não podemos apresentar de cara a magia, o mistério do não saber, o não sentido do Real. Através do conhecimento, da posição de suposta autoridade e experiência, o analista captura o analisando para um processo de autoconhecimento até que este seja capaz de suportar o não sentido.


Att, Pedro Possidonio. 
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domingo, 19 de abril de 2020

Sintoma e Teoria de Lacan



Sempre que falamos em Lacan devemos ter em mente que ele se propõe a fazer um retorno à Freud. Uma frase significativa dele no final da vida foi: sejam lacanianos se quiserem, eu sou freudiano. Isso significa que tudo aquilo que falamos para Freud vale para Lacan. O que o célebre psicanalista francês buscava era preencher as lacunas daquilo que o pai da psicanálise havia criado mas, segundo ele, não havia enunciado por completo, não havia se dado conta ou não teve oportunidade de dar continuidade durante seu trabalho. Claro que este ponto é discutível nos meios psicanalíticos, onde muitos apontam que o que Lacan fez foi em outro sentido completamente diferente do de Freud, mas esta discussão foge ao escopo de nosso trabalho.

Para nós importa agora falar das contribuições lacanianas para o desenvolvimento da psicanálise. Iniciaremos pelo conceito de Sinthoma, no qual Lacan faz referência ao grego Symptome, aquilo que cai, significado que faz Lacan apontar que o Sintona deve cair durante a análise. Vale marcar a diferença entre sintoma, iniciando com minúscula, termo idêntico ao de Freud, e Sinthoma ou Sintoma, com s maiúscula, fazendo assim referência ao ganho conceitual de Lacan.

No seminário 23, dedicado ao Sinthoma, Lacan coloca este conceito como sendo uma espécie de amarra que faz com que a estrutura da psique continue enodada em forma de cadeia, impedindo essa estrutura de se tornar uma estrutura paranóica, portanto psicótica, ou seja, a psicose paranóica seria para Lacan a base do funcionamento psíquico, a neurose seria um construção posterior, a nível de emenda, fazendo com que a estrutura borromeana da psique se mantenha unida e continue circulando na cadeia infinita de significantes.



Para acrescentar ao entendimento da teoria lacaniana, vamos esclarecer o que seria o nó borromeano. Esta imagem seria um nó de três círculos fazendo uma intersecção mútua, à semelhança da teoria dos conjuntos da matemática onde os conjuntos X, Y e Z se intercruzariam gerando quatro campos de intersecção entre eles. A imagem é uma figura náutica, o nó borromeano seria um nó de marinheiro idealizado para passar firmeza às amarrações que dela necessitem.




Os três conjuntos que compõem o nó borromeano de Lacan são seus conceitos de Real, Simbólico e Imaginário. Simbólico tem a ver com o registro comum às culturas: o alfabeto, os símbolos matemáticos, a linguagem, as metáforas, histórias, contos, tudo isto que está na cultura e que Lacan chamava de Outro, ao menos uma das definições deste conceito o qual não iremos aprofundar.

O Imaginário é o campo do corpo, do registro sensorial. Inicia com a imagem de nós mesmos que vamos percebendo na primeira infância e aprendendo a associar com o eu. A essa imagem do eu aprendemos a coordenar nossas impressões, percepções, o modo como de maneira mediata percebemos e respondemos ao mundo com nossos sentidos. Corresponde, a título de comparação e entendimento, ao que a Melanie Klein chamava de Imagem Inconsciente do Corpo.

Já o Real é o registro impossível em relação ao imaginário, ou aquilo que não cessa de se inscrever em relação ao simbólico. Sempre nos escapa, nunca podendo ser totalmente entendido ou aprendido, fonte de uma dimensão de estranhamento que nos faz remeter ao conceito de estranho em Freud, ou infamiliar (Unheimlich). O Real é fonte de angústia. Aquilo que não tem sentido nem nunca terá, para relembrar a famosa música.

Na intersecção de Real, Simbólico e Imaginário está o objeto a (autre - outro). Objeto perdido do desejo e causa do desejo. Quando falamos, em Freud, que um dos destinos possíveis da pulsão é sua satisfação direta, ressaltamos que está satisfação nunca é completa, uma parte sempre fica faltando de ser aliviada, sempre permanece como desejo insatisfeito, e é esta parte que Lacan vai nomear objeto a.

Em outro momento referido como A Coisa, jamais apreendida ou com compreendida pelo eu, mas muitas vezes substituídas pelos diversos objetos que o eu elenca como alvos para seu desejo. Uma vez atingidos, como nunca atingimos o Real ou o Objeto a, acabamos apenas por substituir um alvo por outro, um desejo por outro, continuando nisso processo de desejo e de busca, fazendo do ser humano um eterno buscante.

No campo de intersecção entre simbólico e Imaginário temos o sentido. Tanto o sentido que danos ao que falamos quanto o sentido por exemplo do signo 3 que é três. Na intersecção do Real com o Imaginário temos o campo do Outro, ou o gozo do Outro, que pode ser a cultura, o grande Outro inicial que é a mãe, ou a imagem que recebemos refletida quando dizemos o que dizemos, o sentido que para o outro toma o que comunicamos.

Na intersecção entre Real e Simbólico temos o Gozo fálico, outro importante conceito lacaniano. O gozo seria uma espécie de prazer Inconsciente, é o resultado do trabalho do Inconsciente. Prazer que pode ser entendido como alívio por exemplo, diminuição das tensões pulsionais quando se manifesta um sintoma, lapso ou chiste. O prazer de falar um palavrão ou daquilo que fazemos mas não podemos contar para ninguém.

Quando fala de Joice no seminário sobre o Sintoma, Lacan diz que sua arte é um Sintoma, com S maiúsculo, ou seja, a arte aqui atua como uma amarra impedindo o artista de cair numa estrutura psicótica. Assim temos em Lacan uma nova ideia do objetivo da arte para além da Sublimação de Freud.

Para esclarecer ainda mais a teoria de Lacan, vamos agora falar em signo, significado e significante. Signo é a dimensão da imagem que percebemos, a forma que desenhamos o 3 por exemplo. Já o significado de 3 é três, ou three, ou drei. O significado está no campo dos acordos coletivos que fazem uma imagem ser interpretada de uma determinada maneira. As cores verde e vermelha em sinais de trânsito no mundo todo, praticante, indicam que se pode seguir ou que se deve parar, por exemplo.

Já o significante pertence ao campo da associação livre. Uma mesma imagem como um peixe em um sonho pode ter significados diferentes a depender do sonhador, ou até mesmo para o mesmo sonhador em diferentes épocas. Este nível do significado que cada um da e a cada momento, baseado na associação livre, na conexão íntima de sentido para cada um é a dimensão do significante. O professor Paulo Bregantin completa dizendo que signo é significado é p mesmo para todos, já o significante é diferente para cada um, ou seja, torna cada um o que é, é a diferença que faz de nós indivíduos.

Uma das formas de enunciar o objetivo da terapia para Lacan é fazer com que o indivíduo possa deslizar na cadeia de significantes de forma mais fluida, pois a vida é fluida, é mudança. A atitude neurótica é a da repetição. O neurótico se repete, sempre repete em palavras e atos o mesmo movimento, ficando fixado ao seu traumatismo, apegado a uma ideia fixa de si ou da vida. Superar esta insegurança neurótica e se permitir abrir para novos significados é um dos objetivos de amadurecimento da terapia psicanalítica.

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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Pulsão, Sintoma e Sublimação em Freud



Freud costumava comparar nosso aparelho psíquico com um sistema biológico. Imaginemos um aparelho biológico rudimentar: ele interage com estímulos do meio externo e emite respostas, sempre procurando a homeostase, o equilíbrio. Assim, em consequência dos diversos estímulos do ambiente, nosso aparelho psíquico vai desenvolver diversas respostas. Freud vai utilizar o termo Pulsão (Trieb) como sendo a unidade fundamental de informação nesse aparelho psíquico, o qual vai buscar o equilíbrio encaminhando as diversas pulsões para diversos caminhos.

Pulsão é algo que se formaria, para Freud, na fronteira entre o somático e o psíquico. Para ele, as pulsões são forças constantes que estão sempre empurrando nosso aparelho psíquico, isto causaria um acúmulo, uma sobre-excitação decorrente do excesso de estimulação. Essa estimulação excessiva que se acumula fera desprazer. Por outro lado, quando liberamos os estímulos pulsionais acumulados, temos o prazer em decorrência do alívio desses acúmulos.

Em um de seus importantes textos, Freud fala que o aparelho psíquico é regido por dois princípios, o Princípio do Prazer e o Princípio de Realidade. Nosso primeiro modo de funcionamento, mais essencial ou mais básico, seria conforme o Princípio de prazer: se temos fome, comemos, se temos sono, dormimos, se sentimos frio buscamos nos aquecer, é assim funcionaríamos sempre buscando aliviar os estímulos porém numa condição próxima da animalidade. Como, porém, vivemos numa condição de cultura, muitas vezes não podemos satisfazer de imediato as nossas pulsões devendo adiar o prazer imediato para o satisfazer num momento mais adequado. É o caso por exemplo quando estamos no cinema e aguardamos o final do filme para aliviar as necessidades como urina ou fome. Tudo isso é treinado durante a infância, quando na escola a criança aprende por exemplo a hora que pode ou que não pode sair da sala para usar o banheiro, e até mesmo o fato de aprender que existe um local adequado, o banheiro, para satisfazer as necessidades, já é a inscrição do cultural nos fazendo ir além da condição de animalidade.

Assim, ao aprendermos a adiar as pulsões para o momento é local mais adequados, passamos a funcionar conforme o novo Princípio de realidade, que passa a reger nossa organização psíquica em relação com o social, mas também buscando evitar o desprazer, da rejeição social por exemplo, em busca de prazeres mais elevados e social e culturalmente mais aceitos e desejados, como o caso de buscar melhores condições de higiene e de cuidado consigo.

No seu clássico livro Mal estar na civilização, Freud apresenta o outro lado desta aquisição cultural: ao reprimir as pulsões em benefício dos ganhos culturais, acumulamos uma série de sensações e sentimentos ruins aos quais Freud nomeia genericamente de Mal estar (Unbehagen).

Este mal estar que se acumula seria mais imaginar de sintomas e desequilíbrios que podemos observar nos fenômenos sociais, como o narcisismo das pequenas diferenças, onde pessoas ou grupos semelhantes passam a manifestar forte aversão irracional, como vemos na situação política em que se encontra o Brasil atual, onde grupos de classe média semelhantes de digladiam nos discursos, nas redes sociais e algumas vezes até fisicamente, infelizmente, fazendo da violência e do discurso de ódio perigosos ingredientes de nosso caldeirão civilizacional.

Precisamos agora retomar s teoria de Freud sobre as pulsões. Em seu Pulsões e seus Destinos, Freud enumera alguns dos destinos possíveis para as pulsões. O primeiro deles é quando ela atinge a sua satisfação: ao sentir fome, comemos, ao sentir cócegas, rimos. Vale ressaltar que mesmo quando uma pulsão atinge seu destino ela nunca se esvazia completamente, ou seja, a satisfação pulsional direta nunca é completa, o que caracteriza mais uma fonte de mal estar.

O segundo destino de uma pulsão é sofrer o Recalque, mais um importante pilar conceitual para Freud. Ao ser confrontada com o Princípio de realidade, uma pulsão de agressividade por exemplo é recalcada ou reprimida retornando para o Inconsciente. A marca do recalque é o esquecimento ou a não identificação por parte do eu ou ego, mas vale ressaltar que os impulsos reprimidos continuam a atuar em nosso aparelho psíquico como fatores existentes, reais, causadores de mal estar e de sintomas.

O terceiro destino possível para a pulsão é exatamente a transformação em sintoma. Os casos clássicos de Freud são exemplificados com as diversas manifestações de sintomas histéricos daquilo que ele chamava de conversão: uma forte reação emocional poderia se transformar numa dormência, numa inibição, num mal funcionamento de um órgão ou membro, dentre outros. Assim, sintomas são, para Freud, a manifestação de acúmulos emocionais negativos decorrente de experiências traumáticas, negativas, aversivas ou violentas. Através dos sintomas surge toda uma teoria das estruturas as quais não é nosso objetivo aprofundar, mas temos a título de ilustração as neuroses, psicoses e a perversão.

Finalmente, um último destino possível para as pulsões é o que Freud chamou de Sublimação. Termo originário da física indicando a passagem do estado sólido diretamente para o vapor, indica transformação, mudança de qualidade ou de estado. Freud relata que a Sublimação é a transformação de uma pulsão em um objeto que seja culturalmente ou socialmente adequado.

Assim, todos os objetos de arte como músicas, pinturas, peças de teatro, toda a literatura, poesia, contos folclóricos, a própria dedicação à ciência, ao trabalho, a arquitetura, a mecânica, a engenharia, e incluímos por nossa conta, algumas manifestações da religiosidade, tudo isso seria a transmutação dos impulsos do ser humano em objetos mais socialmente desejáveis. Tudo aquilo que tem valor para a cultura é derivado deste mecanismo que Freud nomeou Sublimação.

Queremos concluir apresentando algumas ideias do que acontece durante um processo de terapia. O primeiro elemento é um processo de conscientização do ego ou eu daqueles impulsos recalcados que podem estar sendo transformados em sintomas. Ao relembrar, falar e repetir situações traumáticas, a pessoa é capaz de fazer uma catarse, uma limpeza emocional de uma série de fatores incômodos.

Como muitas vezes não temos espaço socialmente para entrar em contato com nossos sentimentos e emoções, é comum que no processo de terapia a pessoa se dê conta de partes dessas emoções que nem sequer tinha acessado por inteiro. Ao se conscientizar e falar, aquilo que antes estava reprimido no Inconsciente pode ser limpo, esclarecido e reintegrado da consciência, processo que Freud chamava de elaboração.

Em um segundo nível, na medida em que fala, o analisando está elaborando um processo criativo no qual está presente a Sublimação, ou seja, enquanto fala o analisando está já num processo criativo, cria e expressa a si mesmo enquanto fala. O analista enquanto escuta tem o papel de fazer vir à tona o Inconsciente, dando especial atenção aos processos através dos quais o Inconsciente atravessa a consciência, nos lapsos, nos chistes e nos sonhos por exemplo, fazendo assim com que o Inconsciente se expresse e seja integrado pela consciência.


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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Janeiro Branco



Janeiro Branco e o Cuidar da Saúde Mental!


Com a virada do ano, muitas pessoas aproveitam para celebrar em família, confraternizar com os amigos ou até mesmo lançar suas metas e objetivos para o ano vindouro, o ano novo que está chegando.

Para tantas outras, no entanto, o período de mudança de ano evoca uma série de sentimentos negativos como tristeza, lembranças ruins, traumas, perdas, vazio existencial e até me foi relatado outro dia o aumento da falta de sentido para a vida.

Ainda que seja normal termos momentos altos e baixos ao longo da vida, quando nos sentimos mal por um longo tempo e temos dificuldade de lidar com nossos sentimentos e impressões negativas é chegada a hora de buscar ajuda profissional. Principalmente quando sentimos uma vontade de chorar incessante, vontade de se isolar, pensamentos acelerados ou negativos que não nos dão trégua, coração acelerado, palpitações ou falta de ar, tremores, tontura, dores de cabeça muito fortes, tristeza fora do comum, e até mesmo forte angústia ou crises de ansiedade. Na nossa modernidade, infelizmente, cresce o alerta para as manifestações como o suicídio, a automutilação, o ciberbullying, dentre outros.

Quando chega Janeiro, nós temos a campanha Janeiro Branco, a qual vem ressaltar a importância do cuidar da saúde mental e quebrar uma série de preconceitos como o de que psicólogo ou psiquiatra são médicos de doido, quem toma remédio vai depender deles o resto da vida, o que depressão e ansiedade são frescura, ou são falta de Deus ou até mesmo falta de força de vontade de sair dos próprios problemas.

Ter transtorno ansiedade ou ter depressão são situações que podem ocorrer com qualquer pessoa, são quadros clínicos exatamente como diabetes ou hipertensão, e exigem tratamento adequado conjuntamente de psicólogo e psiquiatra.

Esses profissionais tratam ainda uma série de outros quadros como déficit de atenção, transtornos emocionais, transtorno de pânico autismo, entre outros. Então devemos quebrar o preconceito e buscar ajuda quando realmente precisamos, ou quando estamos na dúvida, além de incentivar nossos amigos e familiares a procurarem cuidar da saúde mental buscando ajuda profissional. Quem cuida da mente cuida da vida!


Pedro Igor Possidonio Almeida
Psicólogo. CRP 11/09213



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sábado, 21 de dezembro de 2019

Depoimento


Pedro, meu irmão, a verdade é que sozinho eu não chegaria aqui. Entre erros e acertos, cheguei. Agora é tempo de descansar e repor as energias ciente de que fiz o que deveria ser feito, do jeito que foi possível ser feito, pois, pra quem decide ficar do lado de cá da trincheira, só restam a esperança e a certeza da luta. Gratidão, Pedro. Não desista da tua profissão nunca. Você salva vidas! Feliz Natal!

Depoimento autorizado por cliente.