sexta-feira, 8 de maio de 2020

O mal entendido

O mal entendido é um conceito fundamental para Lacan. Ele diz que está no centro da comunicação humana. Isto ocorre porque, naquilo que dizemos, existem muitas possibilidades de interpretações, e cada um interpreta conforme sua história, suas vivências, seus significados. Por isso, também, quando dizemos, o fazemos com um sentido e, às vezes, a interpretação do outro vem num completo outro sentido. Por isso é preciso cuidar das relações, é preciso, escuta, presença.




Sempre tem algo de vazio e aberto a interpretações. Parte do treinamento de ser analista é aprender a perceber isso nos analisandos, pacientes e clientes. um treino de ouvir isso no que os outros falam. Inclusive é possível dizer que, quando o cliente está em sessão, não é exatamente ele quem fala, pois quem fala muitas vezes é o Inconsciente, se manisfestando nos atos falhos, lapsos, erros, chistes, esquecimentos, duplos sentidos, mal entendidos. Então ficamos muito muito atentos a essas questões de entrelinhas, entre-ditos , menções que nem mesmo a pessoa se dá conta, um escuta com uma atenção diferenciada a nosso próprio Inconsciente, treinado, a perceber o que chega naquilo que o analisando fala, pois nas entrelinhas o Sujeito do Inconsciente fala, se manifesta, e é necessário ser ouvido para se tornar consciente.



A base do conhecimento de nós mesmos, que é um conhecer ao Inconsciente, é que nós vivenciamos um desconhecimento essencial de nós mesmos. Nós não sabemos que somos. Isso nos leva a questão da verdade ou mentira em terapia, bem como na vida. Claro que ninguém diz totalmente a verdade o tempo todo, e alguém q diga "Eu só digo a verdade", essa frase já é uma grande mentira, já é uma demonstração de inconsciência. Isto é diferente da mentira intencional, para manipular. É uma mentira do ser que não se percebe, pois mentimos principalmente pra nós mesmos , não sabemos quem somos totalmente. Existe dentro da dimensão do Inconsciente uma coisa informe, amorfa, em nós que desconhecemos, Freud chegou a usar o termo Infamiliar (das Unheimlich).


Toda essa discussão me lembra a música de Chico Buarque O que será (À flor da Terra). Convido você a escutar ela com essa percepção agora pra perceber, como ela pode também falar disso que estamos discutindo. Segue a letra/poesia:


O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho
O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo

Podemos enunciar muitas teorias pra o que é que ele estáá falando na metáfora da música. Mas em momento nenhum se fecha, porque o nosso ser é assim, é aberto, é sem sentido final (o que é diferente de dizer que não tem sentido), e essa é uma das maiores fontes do nosso sofrimento. O trauma do Real, ou a angústia do Real. Viver, em si mesmo, é uma forte de traumatismo. Daí buscamos preencher esse furo com o falar, o simbólico. E, na dimensão do simbólico, sempre temos abertura para novos significados, daí que a linguagem do ser humano é criativa, aberta.




Diferente de um animal, que já nasce pronto, o ser humano é o único na natureza que precisa fazer-se, se descobrir e se realizar. O gato ao nascer trás em si toda sua 'gaticidade'. Já o ser humano dever tornar-se humano. 

A dimensão instintiva do gato nasce completa, no ser humano, esta  dimensão apresenta um furo. Esta imagem inconsciente dos instintos é para Lacan a dimensão do Imaginário, repertório pré simbólico ligado à cadeia evolutiva do ser humano. O furo, a ausência de sentido no imaginário do humano é a dimensão do real.

Para preencher o furo no imaginário é que existe o simbólico, o que se dá por meio da linguagem. Coutinho Jorge vai completar essa lição dizendo que tudo o que é do ser humano está mergulhado na linguagem. Lacan diz nos escritos que o sujeito humano nasce na linguagem. Mesmo assim, em tudo que se fala há o atravessar do real, a falta, o vazio impossível de ser fechado num significado último.

Para mais reflexões lacanianas sugerimos os Livros Fundamentos de Psicanálise de Marco Antonio Coutinho Jorge e o livro Por quê Lacan, de Christian Dunker. Sugerimos o canal deste também no Youtube. Para quem prefere os vídeos, fizemos também uma playlist em nosso canal chamada Melhores Reflexões em Psicanálise e Cultura. Segue o link: Clique aqui.



Att, Pedro Possidonio
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terça-feira, 5 de maio de 2020

Análise Psicológica, Mitológica e Arquetípica do Filme "O Poço"


Atenção! Contém muitos Spoilers
Recomendo ver o filme antes e esta análise depois.


Vamos fazer através destas breves reflexões uma análise Psicológica do filme O Poço, seus simbolismos e lições. Pretendemos aqui ir um pouco além da crítica que normalmente se faz, da estruturação do Poço em camadas sociais, no entanto sem abrir mão dela.

Existe uma história que vem à mente imediatamente quando assistimos o filme. É aquela que diz assim: Era uma vez, no céu e no inferno, um grupo de pessoas, cada uma delas tinha uma grande colher e havia um caldeirão imenso com uma deliciosa sopa. Ainda que o cenário fosse o mesmo, a diferença é que, no céu, as pessoas alimentavam umas às outras com suas grandes colheres, enquanto que no inferno as pessoas, somente pensando em si, tentavam de toda forma tirar vantagem e evitar o ganho dos companheiros de cela. Assim, tentavam comer com suas colheres mas derramavam a sopa, se queimavam, estragavam, e todos passavam fome, enquanto no céu todos estavam nutridos de sopa e de afeto.

Vamos fazer referência aos personagens principais com suas imagens, não mencionando eventuais nomes que tenham aparecido no filme. Assim, vamos chamar de O Velho, O Quixote, A Mãe e A Menina de Olhos Puxados do fundo do Poço, a qual chamarei, inferência minha, de Esperança. 



O Velho, por exemplo, representa uma versão antiga de deus, uma divindade que só se saciava com sangue, a semelhança de Wotan e do Fauno, deuses considerados pagãos que tinham o dom da ordenação cósmica mas não se preocupavam com a moralidade. Assim como os deuses gregos, que se diferenciavam dos homens como sendo imortais, e não como moralmente superiores, vivendo as mesmas pathos, as mesmas paixões dos humanos. Assim, nosso Velho do bombástico meme do Óbvio, ora aparece como Saturno ou Zeus, ora representa Dionísio, o aclamado deus da crítica e da dúvida nietzcheana.

O nosso representante do Arquétipo do Herói leva consigo para sua iniciação no Poço o icônico livro Dom Quixote, o cavaleiro de escudo brilhante que lutava com moinhos de vento, representando as utopias e os sonhos impossíveis. Podemos aqui fazer uma primeira comparação de opostos nos arquétipos de Jung: Puer e Senex, o Velho e o Iniciante ou iniciado. Assim, chamaremos nosso Heróis de Quixote. Percebemos que ele apresenta primeiramente uma motivação egoística, deixar de fumar, obter um certificado, mas depois ele se engaja na transformação completa da lógica de ilusões do poço.

Vamos agora nos referir ao próprio Poço, símbolo arquetípico muito interessante. É a torre em que habita a princesa enclausurada, é o calabouço no fundo do castelo. Quando caímos em depressão sempre se fala, cheguei ao fundo do Poço, mas no Poço haverá fundo? 132? 200? 250 níveis? O Poço é a caverna de Platão, é o Samsara, mundo das formas e representações ilusórias, mundo prisão de provas e espiações em imagens mais modernas, o Vale de Lágrimas da cristandade. O Poço é o Mundo da matéria, governado por uma administração cega. Se os recursos fosse bem distribuídos, ora, haveria para todos. Mas quem vai deixar de estocar seu álcool em gel e seu papel higiênico em tempos de pandemia no qual escrevo, não é mesmo? A imagem de cair no Poço remete a muitos mitos, vamos só mencionar o mito moderno de Alice, a heroína que desce pela toca do coelho. 

O poço tem 333 níveis habitados, no entanto eles descem até mais fundo, o que me leva a referir que o nível 333 é o meio do poço. O final fica no 666. Não é Óbvio? Em vários momentos nosso personagem velho trás elementos do Trickster ou Mercúrio, divindade pagã que fazia travessuras e representa a animalidade no homem, a semelhança dos contos do Saci em terras brasileiras ou dos doendes e gnomos dos gringos. Doces ou Travessuras? A Panacota, um doce, óbvio.

Para os antigos Deus caía sobre a Terra na forma de Maná, e nos alimentávamos diretamente de seu corpo na travessia dos Hebreus pelo deserto, aliás o Poço é também o deserto. Este deus provedor é substituído na nova aliança por um deus que se manifesta nos pobres, nas crianças, nos doentes. Todo aquele que dá de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vestir a quem tem frio, é a mim que o faz. Jesus, o Mestre Jedi da galiléia, faz com que o pão que cai dos céus se trasmute no seu corpo e vire alimento da alma, que encarna nos pobres e nas minorias, na criança que está no fundo do poço.

A criança, uma linda menina de olhos orientais, é a garota vietnamita da foto histórica, com sua pele queimada pelas bombas químicas que representam o começo de uma nova era da humanidade. Tema também mitológico, a transição da era de Saturno, o velho, patriarca, para a Criança Oriental e mulher, o feminino sagrado que está nascendo e regerá a humanidade na chamada era de aquário. 

A mensagem passa do pão, do maná, do deus provedor, para a criança, que representa o despertar de um olho oriental para quem está lá em cima, no topo do mundo ocidental, no nível zero do poço. Sua mãe, quando chamamos por ela e a ajudamos a alimentar a criança, se transforma naquela que roga por nós, e a nosso auxílio intercede nos momentos mais difíceis. Temos aqui mais um par arquetípico da mãe e da criança divina. A mulher entrou só no poço, mas surgiu uma criança, ela é filha do sofrimento desta mãe? Como a imagem da Lama que faz surgir a mais bela Flor de Lótus. A criança agora é a mensagem, ela é a Esperança. Será que ela vai conseguir? Saturno e seu filho, seu iniciado, ensanguentado como na representação de Mel Gibson, torcem por ela.



Hoje temos a notícia de que o vírus, pandemia mundial, já matou mais do que o Vietnã. O egoísmo assombra nossas possibilidades de sobrevivência. Heróis dão a vida para cuidar dos outros, ou se dão a muitas perdas para cuidar dos seus. De toda esta lama, esperançamos, surja um novo lótus que seja para nós uma mensagem. Tem muita coisa fervilhando no inconsciente coletivo da humanidade...





Vamos agora trazer breves notas sobre as estruturas psicológicas e os personagens. As estruturas é um tema na Psicanálise de Freud. Diante de um sofrimento ou do sofrimento, da angústia, aquilo que Lacan chamava de O Real, formam-se as estruturas neurótica, psicótica e perversa.



O velho representa a perversão. Diante da ausência de sentido ele pensa apenas nele mesmo, renega a lei e o pacto social. Projeta nos outros dizendo que os outros vão estragar a comida ou nela excretar, e por isso ele pode fazer também, afinal, fizeram com ele. O psicopata ou sociopata são exemplos extremos, como aqueles que estão nos níveis mais profundos estuprando, matando, esquartejando, queimando os índios, afinal, o que importa é o meu prazer. Como na figura do Dexter, psicopata que só mata psicopatas, temos uma renegação da lei em favorecimento do id, instancia onde habitam as pulsões e os desejos.



O Quixote representa por sua vez uma estruturação Psicótica. Assombrado pelos moinhos de vento, após as mortes do velho e da dona do cachorro, ele faz o ritual sacrificial de incorporação da carne, como apontado no livro Totem e Tabu, de Freud, onde os filhos sacrificam o pai e com isso tem que conviver com a culpa do assassinato. Ele tem várias alucinações com as vozes de sua cabeça que o assombram até que aceita, assim como Jonas, mergulhar nas profundezas do Poço para levar A Mensagem. O Psicótico recusa o desejo (de comer por exemplo) e sucumbe diante da culpa, mas pode transitar para uma borda um pouco mais neurótica, ao tentar refazer um pacto com a dimensão do desejo.



A nossa amiga dona do cachorro representa o pacto do neurótico. Ela sabe, já trabalhou para o sistema, mas em busca de dar um sentido para sua finitude resolver entrar no poço e ajudar aquelas almas perdidas na escuridão, então ela tenta enunciar as regras do pacto social, sem sucesso. Afinal, ela sabe como todos deveriam ser para a sociedade funcionar. Então, como dizia Lacan, cria o seu mito individual do neurótico e nele se isola para fugir da realidade dura e sem sentido do Poço.



Outra figura que representa o Neurótico é o homem negro que ajuda Quixote, hora ele aparece quase como um pregador mas buscando sua salvação individual, horas encarna a figura de um líder que conduz sua voz ativa e agressiva para que os recursos sejam melhores distribuídos no poço. Terá ele ficado satisfeito com seu papel nesta intrincada trama cósmica? O Neurótico sempre criará novas defesas para desviar a visão clara da luz que irradia e queima os olhos.



Não concluindo mas tendo que terminar, falaremos do tema da Sublimação de Freud, ou função transcendente de Jung, função criativa da Psique. Haverá futuro para nossa ilusão? A função criativa se apresenta primeiro como um livro, o qual depois não servirá para nada, e finalmente virará forro para o estômago vazio e desesperado. As histórias que são contadas e se contradizem nos vários níveis do Poço. A Luz que brilha quando Quixote e a Esperança estão no fundo do fundo do Poço. A figura de um professor negro em uma cadeira de rodas, um Luther King que perdeu seus movimentos e manca, ele é o psicólogo do grupo, sentado em sua cadeira servindo de porta voz às incursões da Mensagem, o Significante que vem da dimensão do inconsciente e que deseja resgatar o Equilíbrio da Força. E você, qual seu time? Não há futuro de nossa ilusão, acredita no Crepúsculo dos Ídolos, ou joga no time dos poetas,dos delírios utópicos, dos vagabundos, dos que ousam sonhar que a Esperança vai conseguir atravessar o Poço e que sua Mensagem será ouvida? Fico à disposição para receber e trocar reflexões.

Uma amiga sugere colocar indicação de leitura para quem quer mais reflexões simbólicas e mitológicas. Indico o homem e seus símbolos de Jung, e o poder do mito de Joseph Campbell, ele também está como video no Youtube. De Psicanálise recomendo o Fundamentos de Psicanálise de Freud a Lacan, de Marco Antonio Coutinho Jorge, e A Reinvenção da Intimidade, de Christian Dunker.

Recomendo também no meu YouTube a playlist Leituras em Psicanálise e Psicologia Analítica: Freud, Lacan, Jung. Segue o link:

https://www.youtube.com/playlist?list=PLKQTT6Hd8z-Ct2U7PMIIQkmFMX2TBZGD7



Att, Pedro Possidonio
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sábado, 2 de maio de 2020

Acolher o que mais incomoda no outro



Muitos de nós vivemos a experiência de ter uma pessoa muito próxima que é para nós um grande desafio, seja o pai ou seja a mãe, um irmão ou outro alguém que tenha feito parte de nossas vidas. Esta pessoa é quase como se fosse um treinamento interior para extrair o nosso melhor. É como se a sabedoria da vida nos tivesse destinado este professor, e esta pessoa, ao nos machucar, nos preparasse para os desafios do mundo, para a dureza da realidade Num primeiro momento temos o confronto psicológico com a sombra, temos projetado no outro tudo aquilo que existe de pior na humanidade. Mas vale lembrar que todos os sentimentos humanos nos pertencem, trazemos em nós, como dizia o poeta, todos os sentimentos do mundo.

Além de aprender a silenciar, acho importante aprender a acolher no nosso coração a humanidade dessa pessoa, acolher os defeitos e os sentimentos ruins que evocam de em nós. Assim, aprendemos a acolher nossa própria sombra. Vou me concentrar, a quem interessar possa, nas figuras de pai e mãe. Cobramos do pai e da mãe, por exemplo, que eles sejam perfeitos, temos dificuldade em ver o ser humano real que está ali diante de nós, com sua história, suas dificuldades, seus limites. Mas uma chave secreta sobre essa questão é que nossa fidelidade Inconsciente a eles está sempre presente. Dizendo de outra forma, na nossa criança interior sempre somos fiéis a nossos pais e os amamos, e quando nossa mente os rejeita acabamos por rejeitar a nós mesmos, ou seja, passamos a nos amar menos, e criamos sofrimento e sintomas para nós mesmos. 

Ao acolher o pai e a mãe, acolhemos uma parte nossa que aprendemos a renegar, a desamar. Assim podemos nos tornar mais inteiros na jornada de aprender a amar, aprender a ser. Ao acolher nossa sombra, o que existe de pior em nós e no outro, temos uma oportunidade de fazer uma escolha ao invés de sermos condenados à compulsão, ao sintoma, ao adoecimento.




Att, Pedro Possidonio
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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Por quê é tão difícil ouvir Críticas?



Uma cliente me mandou a pergunta que abre esse texto, comentando uma série de comportamentos defensivos que ela tem após receber uma crítica. Decidi escrever esse texto para responder a ela e quis compartilhar com vocês também.

Na verdade dói em mim também, profundamente, quando recebo uma crítica. Demora um tempo para cada pessoa conseguir processar a informação e integrar o que pode ser tirado de bom e o que não serve do que foi apontado na crítica.

Primeiro aspecto: nossa relação com a pessoa que fez a crítica. Quanto mais temos uma expectativa de agradar essa pessoa, mais a crítica é dolorosa. Devemos observar essa expectativa e o quanto ela as vezes é pesada e irreal. Cobramos muito da gente mesmo e isso nos faz mal. Devemos respirar nessa dor e acolher quem nós somos neste momento, pois só conseguimos ser o que somos.

Ao nos acolher, podemos olhar para o que é possível melhorar e desenvolver em nós. Quando não nos acolhemos, recorremos aos atalhos, às fugas, é quase qualquer coisa pode servir para isso: álcool, drogas, remédios, religião, entretenimento, eletrônicos, sexo, tudo isso vivido na superficialidade do ego e sem a profundidade de alma.

O segundo aspecto da crítica é a competência moral da pessoa que faz a crítica. Por exemplo: uma pessoa que demonstrou em diversas situações ser desequilibrada emocionalmente exige de você ser mais equilibrada, isso pode gerar uma série de sentimentos ruins como o ressentimento. Assim, devemos, com o esfriar dos ânimos, aprender a separar que parte da crítica realmente é sobre nós e que parte da crítica é apenas uma projeção do outro, ou seja, incapaz de lidar com suas próprias emoções o outro projeta em nos seus medos, cobranças, ansiedades, raivas, sentimentos negativos e reprimidos. Neste caso, devemos fazer um exercício, dizer mentalmente repetidas vezes para o outro: deixo com você o que é seu, fico com o que é meu.

Devemos também perceber que muitas vezes são projetadas em nós cobranças de uma adaptação externa indevida: aquele dream consumista de que devíamos ter uma boa casa, carro, emprego, relacionamento, etc, e se não o temos é por que somos (aí vem a projeção: egoistas, negativos, desorganizados, preguiçosos, etc). Nesse ponto faço uma leve alusão ao fato de que vivemos numa sociedade excludente e de fortes desequilíbrios econômicos, mas cabe a cada um procurar o seu caminho frente às adversidades externas.

Outro aspecto, acho que é o terceiro: nós temos o instinto de viver em grupo. As vantagens evolutivas do ser humano na natureza são o grupo e o uso de instrumentos através de sua engenhosidade, inteligência. No nosso eu biológico está profundamente inscrita a necessidade de pertencer ao grupo, e a crítica ou qualquer forma de rejeição, abandono é sinônimo de morte, pois ser abandonado pelo grupo é o mesmo que morrer. Essa relação se reflete na história individual entre mãe e bebê, não ser cuidado ou ser abandonado é o mesmo que morrer. Claro que isso é uma verdade mais profunda na nossa mente, pois muitas vezes mesmo o bebê abandonado é acolhido pela sociedade ou adotado ou pela avó ou tua por exemplo (mais uma vez o grupo).

A quarta e última reflexão sobre a crítica é a ideia de que no nosso inconsciente infantil, que está presente em todos nós, na nossa criança interna, temos o desejo (infantil) de sermos completamente amados, completamente acolhidos, independente do que somos ou fazemos. Isso inclusive é utilizado como propaganda em vários momentos da cultura. Também é decorrente do instinto e desejo de pertencer. Quando qualquer coisa ameaça esse desejo de sermos totalmente amados, essa mentalidade infantil, que funciona no tudo ou nada, faz com que sintamos totalmente odiados ou não amados, o que obviamente não é verdade mas é uma verdade profunda no nosso eu emocional. A solução para este último aspecto é aprender a acolher nossa criança ferida e a nos amar como nós somos.

Para concluir, convido fazermos da crítica uma oportunidade, uma chance para mergulhar nas nossas profundezas e abraçar nosso sofrimento, abraçando também nosso verdadeiro eu. Dentro de nós existe uma fonte profunda de sabedoria e de amor, que só pode ser descoberta ao acolher o pior em nós. Dentro de nós existe o céu e o inferno, a sombra e a luz.

Por último uma dica prática: sugiro fazer em meu canal uma meditação: 
Sugiro você sentir qual a que mais combina com esse momento.

1. de cura da criança interna 
https://www.youtube.com/watch?v=mK5ZC0poJu8

2. de perdão ou 
https://www.youtube.com/watch?v=_AH9rJ7UitM

3. de limpeza emocional. 
https://www.youtube.com/watch?v=dC2wXsUCyA0






Att, Pedro Possidonio.
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domingo, 26 de abril de 2020

Do medo ao Amor


O amor verdadeiro quando surge deve ser um terror para o ego. O maior medo do nosso eu menor é morrer, deixar de existir. Ele se imagina sendo dissolvido na torrente de amor do verdadeiro ser amoroso que habita dentro do coração.

Quando o encontro acontece, esse espaço interior ameaça se abrir, é isso para o eu menor é um pavor, deve ser terrível. Afinal foram anos de trabalho levantando barreiras para não sofrer, e me chega esse tal de amor querendo destruir tudo?!

Mas como o amor é uma dimensão que está dentro de nós e entre nós, ele vai se aproximando mesmo sem ser chamado. Ou será que no mais íntimo chamamos por ele sem perceber? O fato é que ele nos convoca, nos chama, e aos pouco vai derretendo as defesas do eu para encontrar conosco num grande abraço ou num olhar ou até mesmo num trocar de palavras.


***

Tem uma metáfora que é a de Jonas, em um livro chamado caminhos de realização, dos medos do eu ao mergulho no ser. O próprio título é poético. Jonas diz não para a voz do amor que o chama, mas ele a renega. É engolido por um ser da escuridão até que passa por um processo interior onde aprende a se reencontrar com seu caminho, aprende a dizer sim para a vida, dizer sim para o que o amor quer realizar em sua vida...

Nunca sabemos quando nem onde vamos o encontrar, mas ele está sempre nos conduzindo até descobrirmos o melhor em nós...


Att, Pedro Possidonio. 
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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Desenvolver o Amor entre nós



Dentro de nós existe um estado de silêncio que pode ser chamado estado de meditação, mas pode ser chamado pela ideia de presença amorosa também.

Tudo que fazemos com presença amorosa desperta esse estado, de conexão com o nosso verdadeiro Ser, o Si mesmo ou Self de Jung. Amar alguém também é uma forma, assim como estar com quem se ama.

É uma caminhada treinar essa presença amorosa.

A palavra desenvolvimento é interessante porque pode ser usada nesse sentido: Des-envolver, quer dizer, tirar os véus, os véus do ego, do apego, da ilusão, do sofrimento.

Nosso processo de evolução no amor pode ter essas duas metáforas:

Uma é a de que não o temos, a não ser como uma semente, e as transformações da vida servem para cultivar e fazer crescer. Carl Rogers fala que temos em nós uma tendência atualizante que busca a vida, assim como batatas num quarto escuro buscam uma única freara de luz ficando estiolada, a vida em nós procura sempre o meio de se fazer crescer.

Outra é essa de que já temos toda a fonte de amor e de todos os recursos dentro de nós, mas precisamos fazer um polimento interno das várias dimensões de ego, sombra e sofrimento, para aprender a se conectar com o Ser, com o amor. Daí, estar com a pessoa com quem cultivamos o amor juntos é uma forma de um apoiar o outro nessa jornada.

Tanto um serve de projeção da sombra do outro, dos defeitos, das raivas, mas também da beleza, do encanto, da poesia, da paixão, do amor, da inspiração, do apoio, do carinho, do compromisso de estar juntos nessa caminhada rumo à descoberta de nós mesmos.


Att, Pedro Possidonio. 
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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Sobre a Presença Amorosa



Nesses dias eu estava refletindo sobre a ideia da presença amorosa, de a gente sentir dentro de nós uma fonte de amor que nos acompanha quando estamos nas melhores companhias ou até quando estamos sozinhos. Eu sinto que é sobre respirar fundo e sentir que existe um amor, uma aceitação, um acolhimento que pode brotar aqui quando buscamos desenvolver um olhar amoroso sobre os processos que estamos desenvolvendo em nossas vidas.

Muitas vezes olhamos para a gente com um olhar crítico, descrente, amargo, a gente se cobra muito né? A reflexão passa pela ideia de como a gente pode se surpreender ao perceber que verdadeiramente pode se amar e q não importa o q aconteceu antes na nossa vida, o que importa é daqui pra frente, abraçar os nossos defeitos e junto com nosso melhor procurar viver o que a vida tem de melhor a oferecer. Ao mesmo tempo nesse espaço de presença amorosa a vida sempre trás o melhor, podemos ter confiança no que virá porque tudo ocorre para esse melhor.



Att, Pedro Possidonio
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